MORFOSE

BRIEFING DO PROJECTO

INTRODUÇÃO À COMUNIDADE
MORFOSE

INDIVÍDUOS DA COMUNIDADE
MORFOSE

INTERACÇÃO COM A COMUNIDADE
MORFOSE

INFLUÊNCIA NA CRIAÇÃO
DA COMUNIDADE
MORFOSE

Escrevi à tempos que o design deve ser considerado como uma actividade orientada por um contrato social em reco figuração, onde o axioma “design para todos” integre efe tivamente o ecossistema cultural formado pela relação do Homem com a Natureza na tentativa de construção de se tido de um novo contrato natural (como propõe Michel Serres).
Este papel do design natural, ao relacioná-lo com a ecologia, expande o significado dos seus atributos técnicos e funcionais — busca de uma sociedade onde a idade, capacidade física ou analfabetismo não constituem barreiras ao acesso, interação e fruição de bens e serviços, ambiente e equipamentos, comunicação e sistemas de informação — até à integração plena da palavra VIDA e do axioma “design para a vida”. Importa para este Programa do 2º semestre das unidades curriculares de Projecto 2 e de Laboratório dos Media 2 reflectir sobre as dimensões ‘naturais’ do design de comunicação na sua relação com os media, no seu entendimento ontológico, na possibilidade de uma efectiva cross-pollination com a ciência, as artes e a natureza, considerando sempre que os seus limites foram estilhaçados e que os ambientes artístico e digital são o lugar de experimentação e de questionamento de um conjunto de questões fundamentais:*
Estas questões deverão levar a outras no propósito de se criar um espaço de diálogo e de experimentação que conduza à apresentação final de um modelo de comunidade onde as noções basilares de ‘sociedade’ estejam defendidas mesmo que se trate de um microcosmo simbólico ou imaterial. As noções de partilha, de interacção, de mutualidade, já utilizadas no 1º semestre, deverão agora ser objecto de consolidação teórica e prática de modo a construirem cenários/eco sistemas exemplificativos. Nas unidades curriculares de Projecto 2 e de Labor tório dos Media 2 os alunos desenvolverão a sua actividade projectual indiv dua mente e em grupo num ambiente de reprodução de um sistema biológico estr turado sob o lema de “tudo depende de todos”. Neste sistema, onde prevalece uma diluição de hierarquias, os projectos encetados nascerão do entendimento e da aplicação de um conjunto de relações sistémicas endógenas e exógenas. Tal como numa floresta, o sistema de dependências determina que a mais pequena alteração no seu equilíbro se reflecte imediatamente no todo, por vezes, de modo trágico. De modo genérico, pretende-se que, no 2º semestre, os alunos trabalhem com os temas/propostas apresentadas no POSTER integrando-os numa com nidade cujos contornos terão de explicitar: território, organização social e política, sistemas de comunicação e partilha de dados, gestão de conflitos, relações de poder e de controlo, suportes de vida, etc..
*Como manter as expectativas em relação às noções históricas de comunidade? O que se pode alterar? Como nos relacionarmos uns com os outros e com a natureza? Que ensinamentos nos fornecem as relações biológicas dos seres vivos? Como aplicar essas relações na experiência humana? Como aplicar as lógicas mutualistas e participativas na cultura de projecto em design de comunicação? Como aplicar o conceito de cross-pollination na construção de um sistema integrado de conhecimento onde o design não seja o terceiro excluído?

A borboleta é um insecto1 sobretudo diurno da ordem dos Lepidópteros2 sendo o ciclo de vida dos Lepidopteros holometabólico3. As borboletas são insectos particulares que demonstram alterações biológicas interessantes, tais como poliformismo4, mimetismo5 e aposematismo6, havendo também algumas borboletas que migram longas distancias, como é o caso da borboleta Monarca; é de salientar que as borboletas também desenvolvem relações simbióticas7 assim como parasíticas8, encontrando nestas relações e nestes processos biológicos a sinergia perfeita para fazer prosperar a espécie. Os ovos das borboletas são protegidos por uma camada externa rígida chamada de córion9, e podem medir no máximo tanto como uma cabeça de alfinete. O córion (camada externa do ovo) encontra-se revestido por uma fina camada de cera que impede o ovo de secar antes da larva ter tido o tempo necessário para se desenvolver. Os ovos de borboletas são fixados na parte superior das folhas com uma cola natural (cuja natureza ainda é desconhecida) super potente, que seca rapidamente, e conforme a cola seca e endurece, o ovo antes esférico torna-se alongado: oval.
É de salientar que a escolha da planta onde depositar os ovos não é aleatória mas sim criteriosamente selecionada, pois cada espécie de borboletas tem a sua planta predilecta (tanto a nível de nutrientes/alimento como de local de repouso) com que irão desenvolver uma relação de hospedeiro (comensalismo)10.
Esta fase tem uma duração máxima de duas semanas e decorre geralmente na transição do inverno para a primavera/verão.Na segunda fase as lagartas passam a maior parte do seu tempo a alimentarem-se de um determinado tipo de plantas, e apesar de quase todas as lagartas de borboleta serem herbívoras, existem pelo menos duas espécies que são entomógrafas11. Algumas larvas durante esta fase do holometabolismo, mantêm associações simbióticas com formigas (comunicam com estas usando vibrações corporais e sinais químicos de modo as formigas providenciarem protecção nesta fase mais vulnerável e em troca as larvas ajuntam seiva caramelizada para as formigas) mas apesar desta relação colaborativa as larvas mantém ao mesmo tempo uma relação parasítica com a planta hospedeira na qual vivem (devido a comerem a um ritmo alucinante as larvas podem destruir em semanas inúmeras plantações); tambem ainda neste período mais inseguro as larvas apoderam-se do processo biológico denominado de aposematismo, de modo a afugentar possíveis predadores com as suas cores vivas e cheiros químicos tóxicos.
Ao longo de um período de duas semanas uma larva pode crescer até 100x o seu tamanho original, e é nesta fase essencial que as asas da futura borboleta começam a se desenvolver, ainda que comprimidas dentro do corpo da pequena larva. A fase adulta e sexualmente desenvolvida da borboleta é conhecida como imago14. Após cerca de duas semanas dento da crisálida, a borboleta liberta-se da sua concha protectora, contudo ainda nao consegue voar até as asas estarem completamente desdobradas e com hemolinfa15 a cricular por todo o insecto processo que pode demorar até duas horas. As borboletas têm dois pares de asas membranosas cobertas de micro escamas que apresentam formas e cores variadas; apresentam também peças bucais adaptadas à sucção, dispondo de um órgão especial, a espirotromba16 que quando em repouso permanece enrolada em forma de espiral e quando em tensão permite sugar o néctar. A metamorfose deste insecto tem sido um exemplo e conceito inspirador para o Homem desde sempre.
---
Na sequência de uma investigação aprofundada, em termos biológicos, relativamente à essência das Borboletas e o seu processo holometabólico, parte-se de conceitos chave encontrados no decorrer da investigação como mediadores de uma comunidade de chegada. Holometabolismo, Aposematismo, Mimetismo, Poliformismo e Metamorfose são os conceitos escolhidos para a criação de uma analogia detalhada da dita comunidade; abragendo o conceito de metamorfose todos os outros conceitos, ou seja, de uma forma mais directa ou indirecta os restantes conceitos estão todos implícitos no conceito geral de metamorfose; o que não nos leva à sua exclusão é a vontade de posteriormente construir uma comunidade de chegada pormenorizada com base em tais conceitos. A minha comunidade é constituída essencialmente por hominidios que nascem através de uma muhler-estátua num parto doloroso, tendo o primeiro da sua raça sido criado por Deus (criaccionismo). Nesta comunidade os seres reproduzem-se através do toque entre dois seres do sexo oposto (só acasalam três vezes durante toda a sua vida e as mulheres têm a particularidade de serem estatuas que apenas transformam-se em mulheres quando gestantes. O homem é atraído até à estátua pela sua beleza, e assim que a toca/escolha, esta fica gestante e torna-se mulher até o seu filho nascer e ter idade para ser autónomo, aí volta a ser estátua novamente). Os pensadores comunicam uns com os outros em convívios ocasionais, geralmente por escrita e oralmente, nos quais debatem com paixão as suas creçans e ideias. Podem desenvolver relações de mutualismo e de colaborativismo, mas são poucos os casos, contudo é em ambientes mutualistas e colaborativistas que os pensadores melhor evoluem. Caracterizam-se por serem seres curiosos e com questões sempre prontas; muitos levam em demasia o acto de pensar o mundo que os rodeia, tornando-os por muitas vezes loucos.
Ao longo da vida os pensadores desenvolvem vicios tais como fumar tabaco e outras drogas naturais. Estes seres alimentam-se sobretudo de livros (alimentação intelectual) e do que a terra lhes dá (alimentação fisica). Devido à perda prematura da mae, ainda enquanto criança e a perda da sua amada para o frio marmore, e devido a todas as questoes que os atormentam estes seres geralmente suicidam-se, se não morrem por velhice (máximo 90 anos).

Michel Foucault, Pierre Lévy, Steven Shaviro e Jose Bragança Miranda

PANÒPTICO

“Em 1791, Jeremy Bentham (1748-1832) projectou e publicou um novo conceito de arquitectura prisional ao qual chamou Panóptico “O olho que tudo observa”. Etimologicamente, Panóptico deriva do neologismo de origem grega Panopticon, Pansignifica “tudo” e Opticon significa “visível”, “tudo visível”, palavras que traduzem eximiamente a génese desta estrutura.
Bentham aspirava a conceber um novo modelo de prisão, que se regia segundo a máxima de que a vigilância contínua dos indivíduos teria efeitos regeneradores nesses indivíduos, e em última instância na própria sociedade.
Originalmente, o objectivo fundamental do Panóptico foi a criação de uma estrutura arquitectónica que, com o mínimo de esforços humanos e despesas económicas, fosse capaz de vigiar e controlar permanentemente o comportamento humano, permitindo uma ‘regeneração’ moral. Desta forma, e tal como Bentham imaginou, a estrutura básica do Panoptico era circular ou poligonal com celas concêntricas. Na área de reclusão, e em pisos sobrepostos, o corpo periférico continha as celas dos presos, que irradiavam do centro do círculo. Cada cela dispunha de uma janela para o exterior, sendo a face oposta da cela aberta para o interior. O acesso realizava-se por uma porta no gradeamento interno, através e uma galeria concêntrica em forma de anel.
Independente desta estrutura, mas posicionada no seu centro, existiria uma torre de vigilância onde permaneceriam os guardas. A torre dividir-se-ia em igual número de andares da estrutura circular e através de um ardiloso uso da luz, todos os movimentos dos prisioneiros podiam ser pormenorizadamente escoltados pelos guardas escondidos atrás de persianas.
Embora Bentham rejeitasse a ideia central do Cristianismo, admitia a função reguladora da sociedade exercida pela religião, nomeadamente a manutenção, o controlo e a regeneração da ordem. Assim, a omnipresença divina postulada pela religião constitui a essência desta estrutura arquitectónica, já que uma só pessoa ou até a torre desocupada poderia dominar todos os prisioneiros, à imagem de Deus.
Como criação utópica, o Panóptico nunca foi materializado rigorosamente e em todas as especificidades como projectado por Bentham, contudo a sua essência foi aproveitada na construção de diversos hospícios, hospitais e prisões, existindo vários exemplos, nomeadamente em Lisboa, o Hospital Miguel Bombarda. O Panoptico nunca foi projectado como uma simples penitenciária, mas sim como uma máquina de ‘regeneração da moralidade’ altamente eficaz, onde os indivíduos eram despojados de toda a privacidade, humanidade e dignidade, altura em que se iniciava o processo de manipulação. “

---

REDE

Darwin escreve no seu livro a “Origem das espécies”:

“Quase todas as partes de cada ser organizado são tão admiravelmente dispostas, relativamente às condições complexas da existência deste ser, que parece improvável que cada uma destas partes tenha atingido logo de pronto a perfeição, como pareceria improvável que uma máquina muito complicada tenha sido inventada pelo homem logo no estado perfeito.”
(Charles Darwin, A origem das espécies, 1859)
E apesar da época de Darwin não ser marcada pela internet e os meios tecnológicos que se tem hoje em dia, a associação feita pelo autor serviu de reflexão sobre um meio ambiente e seres diferentes dos citados por Darwin. Ao pensar na internet num grande mundo em evolução, podemos transportar elementos de forma figurada mas que, parabolicamente, nos ajudam a perceber o processo evolutivo do meio digital e que as ligações com o mundo real não são incoerentes. Para criar uma Comunidade de chegada (metabiológica) baseada na web torna-se necessário situá-la no processo evolutivo. 
Quando colocados diante de um novo fundo, situados pela mudança técnica numa perspectiva inédita, problemas muitos antigos veem o seu significado alterar-se e precisam assim de serem repensados. Consideremos a informatização como o surgimento de um horizonte contra o qual se destacam antigos objetos repentinamente privados da sua aparência tradicional.
Em que que a cultura se torna quando a comunicação, o ensino, o saber e a maioria das actividades cognitivas são mediados por dispositivos de processamento automático da informação? Como entender o fenómeno artístico num momento em que sintetizadores digitais, editores gráficos e de texto estão transformando as condições da criação de maneira radical?
Quando as simulações computadorizadas substituem a experiencia, e a lógica dos bancos de dados impõe os seus códigos à linguagem científica, será que continuamos lidando com o que chamamos de ciência? O processamento de informação está em via de tornar-se o modelo dominante para pensar os processos físicos e biológicos; desde já as ciências da cognição não concebem mais a memoria, a aprendizagem ou a percepção senão através de esquematizações algorítmicas.
Diante do modelo do computador é que devemos renovar as nossas interrogações sobre o devir e a vida. Sob a luz imprevista da inteligência artificial é que devemos repensar o pensamento.
Entretanto, qual será a origem da dita informatização, que nos obriga a redefinir tantas questões? Como explicar tanto sucesso? Longe de ser uma total novidade, a máquina universal crava raízes profundas na cultura ocidental. O uso crescente dos computadores é ao mesmo tempo o indício e o último operador de uma mutação antropológica de grande amplitude. A informatização revela todo o seu significado graças a uma análise da especificidade do Ocidente, e no rosto do Homo informaticus desenha-se apenas à luz trémula da pergunta: o que é a história?

Numa busca incessante por metamorfoses no pensamento humano, é encontrada numa primeira fase de pesquisa na cultura egípcia o paralelismo ideal. Numa cultura onde a escrita encontra-se como ponto fulcral de transmissão de conhecimento e de evolução, largamente associada a processos de compreensão do mundo, é evidenciada a metamorfose perfeita do saber.
Tal como a borboleta que passa pelo seu estágio holometabólico de quatro fases, o homem egípcio passou da imagética e da oralidade, à escrita do saber, mas o mais interessante para a dita analogia é mesmo o pensamento na sua essência, mais propriamente relativamente ao actos fúnebres. A alma que ascende ao etéreo mas que continua presa a algo de mundano, a metamorfose do homem dininal em ser transcendente, presente ao tribunal sublime dos Deuses-animais é o exemplo perfeito da busca incessante do homem por um conhecimento maior. É nessa busca e aspiração que o pensamento evoluí. (ver livro)
Na contínua busca de metamorfoses no pensamento humano, deparamo-nos nesta já avançada fase de pesquisa, com a sociedade romana antiga, incidindo o nosso foco no Homem Romano e sobretudo nos seus ideais religiosos politeístas. É nas obra de Ovídeo “As Metamorfoses” que encontramos o expoente máximo de influência para a comunidade fictícia Morfose. (ver livro)